Por que a gente chama algumas coisas de arte e outras de artesanato?
Por Rita Lobo - 22 de março de 2026
Se você me segue, viu que no comecinho do ano, a equipe aqui do Panelinha fez uma visita à Bienal de São Paulo. E o Vinícius, educador que guiou a gente por lá, contou que essa era uma das provocações da edição: o que é arte e o que é artesanato?
Aliás, olha essa tapeçaria da Amina Agueznay (na foto acima, de Levi Fanan) . Ela foi feita por artesãos, num trabalho coletivo, o que por si só já questiona a ideia de autoria da arte.
Em termos mais teóricos, dá pra dizer que a arte tá ligada à expressão e autoria, enquanto o artesanato é associado à função e a repetição.
E pra ilustrar a provocação, o Vinícius perguntou se a gente chamaria aquela tapeçaria de arte se, em vez de estar exposta na Bienal, ela estivesse no chão da casa de um dos artesãos.
E, enquanto ele falava, eu já comecei a pensar no paralelo: qual a diferença entre gastronomia e culinária. Você sabe?
Em tese, gastronomia, como a arte, tem a ver com autoria, tem um chef que inventou alguma coisa, que rompeu com algum padrão, ainda que seja uma releitura. Já a culinária, assim como o artesanato, tem função – é a comida que alimenta a família –, tem repetição – é a comida de todos os dias.
Ela também é a comida de uma região — como o artesanato, típico de um lugar.
A culinária é das pessoas, um conhecimento passado de geração em geração na cozinha de casa.
Historicamente, esse trabalho, que por sinal é um baita trabalho, sempre foi responsabilidade das mulheres.
A comida da casa, de todos os dias, é um trabalho que sustenta todos os outros. E ainda assim, costuma ser vista como menor. Como obrigação da dona de casa — tenha ela dupla ou tripla jornada, ou não.
E é uma coisa que, no fundo, ninguém quer fazer.
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Tanto que, quando as mulheres coletivamente começaram a conquistar outros espaços, no mercado de trabalho, os homens não correram pra encostar a barriga no fogão, né?
Pelo contrário, foi a indústria de ultraprocessados que invadiu as cozinhas das casas e remodelou todo um sistema alimentar, vendendo uma nova ideia de praticidade: a de que os seres humanos não precisariam mais cozinhar pra se alimentar.
O resultado a gente já sabe: não deu certo. Os índices de doenças graves relacionadas à alimentação só pioraram. Quanto menos a população cozinha, e mais ultraprocessados consome, piores são os índices de doenças graves, como obesidade, diabetes tipo 2 e até alguns tipos de câncer.
Mesmo diante das evidências, nas casas onde tem comida de verdade, a tarefa segue acumulada pelas mulheres – a divisão de tarefas é coisa rara no Brasil.
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Mas, verdade seja dita, alguns homens passaram a ocupar um outro lugar na cozinha: o do chef de fim de semana. E, olha: essa cozinha do lazer é uma delícia! Eu não tenho nada contra, tá? A cebola já vem picada, o arroz tá pronto, você sabe que a travessa vai ser lavada…
Mas a gente também precisa ver como resolve esse negócio da comida de verdade na mesa todos os dias, né? E eu não tô propondo uma disputa entre culinária e gastronomia. Entre a comida de casa e a do restaurante. Não sendo ultraprocessado, tem lugar pra tudo.
Agora, eu tô propondo, sim, uma reflexão.
A culinária tem que ser mais valorizada. Sem essa mudança, não vai dar pra evitar os ultraprocessados da sua alimentação. Lembrando que não é só refrigerante e salgadinho de pacote que é ultraprocessado, tá? O iogurte proteico, o pão de forma integral, o biscoito fit…
O ponto é: enquanto a cozinha de casa for um lugar sem importância, onde ninguém quer estar, a falsa praticidade desses produtos vai continuar vencendo. E a sua saúde, óbvio, sai perdendo. E muito.
Então me diz: cê acha que um pê-efão de arroz com feijão devia ou não ter um lugar no museu só pra ele?