Posso comer meu docinho em paz?

Posso comer meu docinho em paz?
Compartilhe

Por Rita Lobo - 11 de maio de 2026


Você já deve ter visto alguém comentando: “Ah, eu não gosto desses avisos de ‘alto em açúcar’ na embalagem… Deixa eu comer meu docinho em paz.”.

Toda vez que eu leio um comentário desse tipo nas redes, fico pensando se essa é aquela pessoa que também reclama de ter que usar cinto de segurança ou de não poder fumar no avião…

A lupa nos rótulos não surgiu do nada

Desde 2022, a lupa está estampada nos alimentos industrializados com excesso de açúcar adicionado, sódio e gordura saturada.

Essa rotulagem nutricional frontal só vingou no Brasil porque estamos com um problemão de saúde pública. Doenças graves, como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, só aumentam. E elas estão associadas ao consumo desses produtos. Principalmente aos ultraprocessados, que são formulações industriais tipicamente com excesso de sal, açúcar e gordura.

Não é opinião. É recomendação internacional

A Organização Mundial da Saúde recomenda que os países adotem esse tipo de medida porque existem evidências consistentes de seus benefícios.

Na prática, funciona assim: a rotulagem frontal permite que a pessoa entenda na hora que se trata de um produto nutricionalmente desfavorável. Com isso, muita gente deixa de comer no automático. Quando está escrito que tem muito açúcar adicionado, sódio ou gordura saturada, dá tempo de pensar antes de consumir.

Embalagem vende. Informação equilibra o jogo

As embalagens desses produtos são milimetricamente calculadas para estimular o consumo. E a maioria das pessoas não sabe que deveria ler a lista de ingredientes e verificar se o produto tem aditivos como aromatizantes, corantes, emulsificantes e adoçantes.

Percebe como esse contraponto é fundamental?

A lupa quebra a ilusão criada por embalagens que destacam vitaminas, fibras e promessas de bem-estar, mas escondem excessos importantes. Além dela, outro recurso importante é a tabela nutricional que fica no verso do rótulo. Ela foi repaginada também e, hoje, obedece a uma série de regras, como ter um tamanho da letra que facilite a leitura e também a presença obrigatória das informações nutricionais por 100g e por porção do alimento, o que facilita a comparação entre produtos.

Direito à informação e assimetria

O ponto central dessa conversa é o direito à informação.

Na saúde pública existe um conceito chamado assimetria de informação: é quando quem vende sabe muito mais sobre o produto do que quem compra. Aí fica difícil fazer boas escolhas.

A rotulagem frontal reduz essa desigualdade. E mais: estimula a própria indústria a reformular produtos.

O exemplo do Chile

O Chile foi pioneiro na adoção de selos frontais de advertência, em 2016. Depois da implementação – que foi acompanhada de outras medidas, como tributação e regulação sobre publicidade – houve redução relevante no consumo de bebidas açucaradas e mudanças na formulação de muitos produtos. Justamente porque a indústria queria evitar os selos.

E isso é bom.

Manga não leva selo

Vale lembrar: uma manga ou uma uva, por mais doce que seja, nunca terá na casca o selo de “alto em açúcar”. Ela não tem açúcar adicionado. Alimentos in natura – como as frutas – ou minimamente processados são isentos de rotulagem frontal, exatamente porque o consumo desses alimentos é estimulado para uma alimentação adequada e saudável, de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira.

Portanto, não recebem lupa: frutas, hortaliças, leguminosas, tubérculos, cereais, nozes, castanhas, sementes e colgumelos, farinhas, carnes e pescados, ovos, leites, sal e azeite de oliva, entre outros.

Um bolo caseiro, ainda que leve açúcar, não é um produto ultraprocessado (uma formulação industrial hiperpalatável, elaborada para ser viciante).

O problema não é o docinho

Do ponto de vista da saúde pública, o problema não é o docinho eventual. É o padrão alimentar moldado pela indústria de ultraprocessados, e que está adoecendo as pessoas.

Você já deve ter ouvido aquela frase: “ah, a ignorância é uma bênção”. E posso falar? Às vezes é mesmo.

Mas, no caso da alimentação, saber o que você está consumindo é um direito. E também uma proteção.

Pode comer em paz

Então, coma seu docinho em paz. A lupa não tira o seu prazer. Ela só ajuda você a fazer escolhas melhores.

E se precisar de receita, você já sabe: as minhas estão no Panelinha.

* O Panelinha tem um convênio formal com o @NupensUSP e, na colaboração, os cientistas do Núcleo atuam como consultores e revisores de conteúdos relacionados à alimentação e saúde. O nosso objetivo é melhorar a sua alimentação com base em evidências científicas.

Me acompanhe nas redes sociais!

No Instagram: @Ritalobo e @Panelinha_RitaLobo

No Facebook: Rita Lobo e Panelinha

Canal Panelinha no YouTube

Canal Panelinha no WhatsApp