A revolução contra os ultraprocessados começa pela criança

A revolução contra os ultraprocessados começa pela criança
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Por Rita Lobo - 03 de março de 2026


O ano de 2026 começou com uma boa notícia: a diminuição de ultraprocessados servidos nas escolas. O limite estabelecido pelo Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar) caiu de 15% pra 10% – ou seja, no máximo 10% dos alimentos usados nas merendas brasileiras podem ser processados ou ultraprocessados.

Mas por que isso é tão importante?

Pela primeira vez, a obesidade superou a desnutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar no mundo todo. O dado está em um relatório divulgado em 2025 pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Uma em cada 10 crianças e adolescentes no mundo vive com obesidade – 188 milhões de pessoas.

E o que isso tem a ver com a indústria de ultraprocessados? De acordo com o relatório, tudo.

Esses produtos estão substituindo cada vez mais a comida de verdade, e isso é um problema global. Na vida adulta, é essencial se alimentar bem, mas, na infância, a nutrição tem um papel essencial no crescimento, no desenvolvimento cognitivo e na saúde mental.

O que são ultraprocessados

Se você me segue há tempos, já sabe, mas não custa lembrar: alimentos ultraprocessados são formulações industriais, feitas a partir de amido modificado, isolado proteico e outras substâncias, com excesso de sal, açúcar e gordura. Levam aditivos químicos, como aromatizantes, conservantes e corantes, entre outros.

São produtos feitos para viciar, que passam por tantos processos durante a fabricação que o organismo não reconhece mais como alimento. E as evidências científicas comprovam que eles estão associados ao aumento de doenças graves, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão e morte precoce por todas as causas. É um problema de saúde global, que precisa ser enfrentado com medidas urgentes.

O Brasil como exemplo

O Pnae tem sido referência quando o assunto é alimentação escolar por, desde 2009, destinar 30% do orçamento à agricultura familiar para o preparo das merendas. Neste ano, esse número aumentou para 45%. Além disso, o programa determina que merendeiras e nutricionistas de escolas sejam capacitadas em segurança alimentar e nutricional com base no Guia Alimentar para a População Brasileira, que inclusive recomenda o meu livro Panelinha como fonte para quem quer manter uma alimentação saudável.

Há também iniciativas de estados e municípios para a proibição da venda de alimentos ultraprocessados nas cantinas e nos arredores das escolas. Rio de Janeiro, Niterói e Ceará são algumas das localidades que já estão trabalhando nesse sentido.

Cuidar da alimentação escolar deve ser prioridade porque a escola precisa ser um espaço que protege as crianças de excessos e carências nutricionais. Além de ser um local de redução de desigualdades, ampliação de oportunidades e oferta de comida de verdade.

Ou seja, além de aprender português, matemática, história e geografia, a criança deve aprender também a se alimentar bem. Além do ensino teórico, é importante que as escolas tenham tarefas práticas, como hortas, compostagem e cozinhas pedagógicas.

Um estudo disponível na National Library of Medicine, a maior biblioteca médica do mundo, trabalhou com 197 crianças e 323 pais no Brasil, em 2010. A experiência era a seguinte: uma parte ganhou um material educativo escrito, destinado aos pais, que falava sobre estilo de vida saudável. A outra parte teve acesso ao mesmo material, mas as crianças participaram de um programa educativo semanal sobre prevenção cardiovascular, com uma equipe multidisciplinar de saúde.

Os dados mostraram que, após um ano do programa educativo infantil, houve uma redução de 91% de risco cardiovascular intermediário e alto nesse grupo. Já no outro, que recebeu apenas o material para os pais, esse número caiu em 13%. Ou seja, o fato de as crianças entenderem o que é alimentação saudável transformou a realidade dentro de suas casas.

Informação é um ingrediente importante na luta contra o consumo de ultraprocessados — que tem investido pesado há décadas em propaganda e enxerga nas crianças um mercado consumidor essencial.

Lancheira como estratégia

Há anos venho dizendo: alimentação não é assunto de dona de casa e sim da casa. Homens e mulheres devem saber cozinhar e participar do preparo das refeições. Cuidar da comida deve ser uma empreitada da família. Inclusive das crianças, que podem aprender sobre a importância da comida de verdade de forma lúdica e divertida.

Não por acaso, o Panelinha tem até uma parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria para espalhar a palavra da comida de verdade.

E começar pela lancheira é uma ótima estratégia. Aqui no Panelinha você encontra ideias saudáveis, criativas e sem ter que passar horas na cozinha. Mas por que não envolver os filhos nessa tarefa? Eles podem ajudar a decidir o recheio do sanduichinho, ou mesmo selecionar a fruta daquele dia.

Assim, desde cedo, a criança vai criando uma relação saudável com a comida. Excluindo os ultraprocessados, e não havendo necessidades especiais de alimentação diagnosticadas, podemos comer de tudo! Quanto mais variedade, melhor!

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